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domingo, 30 de novembro de 2008

O PIOR DA CRISE AINDA ESTÁ AINDA POR VIR?

Por Leonardo Boff

Num artigo anterior afirmávamos que a atual crise mais que econômico-financeira é uma crise de humanidade. Atingiram-se os fundamentos que sustentam a sociabilidade humana – a confiança, a verdade e a cooperação - destruídos pela voracidade do capital. Sem eles é impossível a política e a economia. Irrompe a barbárie. Queremos levar avante esta reflexão de cariz filosófico, inspirados em dois notáveis pensadores: Karl Marx e Max Horkheimer. Este último foi proeminente figura da escola de Frankfurt ao lado de Adorno e Habermas. Antes mesmo do fim da guerra, em 1944, teve a coragem de dizer, em palestras na Universidade de Colúmbia nos EUA, publicadas sob o titulo Eclipse da Razão (no Brasil 1976) que pouco adiantava a vitória iminente dos aliados.

O motivo principal que gerou a guerra continuava atuante no bojo da cultura dominante. Seria o seqüestro da razão para o mundo da técnica e da produção, portanto, para o mundo dos meios, esquecendo totalmente a discussão dos fins. Quer dizer, o ser humano já não se pergunta por um sentido mais alto da vida. Viver é produzir sem fim e consumir o mais que pode. É um propósito meramente material, sem qualquer grandeza. A razão foi usada para operacionalizar esta voracidade. Ao submeter-se, ela se obscureceu deixando de colocar as questões que ela sempre colocou: que sentido tem a vida e o universo, qual é o nosso lugar? Sem estas respostas só nos resta a vontade de poder que leva à guerra como na Europa de Hitler.

Algo semelhante dizia Marx no terceiro livro do Capital. Ai deixa claro que o ponto de partida e de chegada do capital é o próprio capital em sua vontade ilimitada de acumulação. Ele visa o aumento sem fim da produção, para a produção e pela própria produção, associada ao consumo, em vista do desenvolvimento de todas as forças produtivas. É o império dos meios sem discutir os fins e qual o sentido deste tresloucado processo.

Ora, são os fins humanitários que sustentam a sociedade e conferem propósito à vida. Bem o expressou o nosso economista-pensador Celso Furtado:”O desafio que se coloca no umbral do século XXI é nada menos do que mudar o curso da civilização, deslocar o eixo da lógica dos meios a serviço da acumulação, num curto horizonte de tempo, para uma lógica dos fins em função do bem estar social, do exercício da liberdade e da cooperação entre os povos”(Brasil: a construção interrompida,1993,76).

Não foi isso que os ideólogos do neo-liberalismo, da desregulação da economia e do laissez-faire dos mercados nos aconselharam. Eles mentiram para toda a humanidade, prometendo-lhe o melhor dos mundos. Para essa via não existiam alternativas, diziam. Tudo isso foi agora desmascarado, gerando uma crise que vai ficar ainda pior.

A razão reside no fato de que a atual crise se instaurou no seio de outras crises ainda mais graves: a do aquecimento global que vai produzir dimensões catastróficas para milhões da humanidade e a da insustentabilidade da Terra em conseqüência da virulência produtivista e consumista. Precisamos de um terço a mais de Terra. Quer dizer, a Terra já passou em 30% sua capacidade de reposição. Ela não agüenta mais o crescimento da produção e do consumo atuais como é proposto para cada pais. Ela vai se defender produzindo caos, não criativo, mas destrutivo.

Aqui reside o limite do capital: o limite da Terra. Isso não existia na crise de 1929. Dava-se por descontada a capacidade de suporte da Terra. Hoje não: se não salvarmos a sustentabilidade da Terra, não haverá base para o projeto do capital em seu propósito de crescimento. Depois de haver precarizado o trabalho, substituindo-o pela máquina, está agora liquidando com a natureza.

Estas ponderações aparecem raramente no atual debate. Predomina o tema da extensão da crise, dos índices da recessão e do nível de desemprego. Neste campo os piores conselheiros são os economistas, especialmente os ministros da Fazenda. Eles são reféns de um tipo de razão que os cega para estas questões vitais. Há que se ouvir os pensadores e os que ainda amam a vida e cuidam da Terra.

Fonte: http://nossofuturocomum.blogspot.com/

3 comentários:

  1. - Está meio sumido deve ser a correria do final de ano! passei para deixar um abraço!

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  2. Leonardo Boff é o que há!!!! Toda a cultura extrativista, tira-se tudo, sugar da terra o que mais for possível sem um manejo adequado, que permita que ela possa se repor, não se dá tempo pra isso...

    Bem a economia americana explodiu junto com as bombas e armamentos no Iraque entre outros lugares... e kioto q se dane p eles!!! Hj fala-se nesta crise diariamente, não estão se tocando da crise pior que virá... quando justiça for feita e a natureza decretar a sentença

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  3. Olá, Daniela!

    Antes de mais nada, mto obrigado pelo seu post! Também já me 'filiei' ao teu Blog, viu? ;)

    Em seguida devo dizer q, de fato, Leonardo Boff é tdo de bom! Talvez por isso tb meus pais tenham me dado o caríssimo nome... rsrsrsrsrsrs.

    Agora, deixando a graça de lado, fato é que, realmente, tem-se dado mto pouca consideração para o cerne da problemática ambiental... É difícil admitir, mas, nossos teóricos da Economia tradicional ainda estão bem longe de compreender e iniciar modificações efetivas nas tradicionais métricas utilizadas para o que seja o desenvolvimento sustentável, que, por isso mesmo, nem sequer merece o referido nome. Um blog que trata com total propriedade dessa inextrincável ligação é o Nossofuturocomum - http://nossofuturocomum.blogspot.com/ (do Hurgo Penteado, que é tb autor do aclamado livro Ecoeconomia) - Certamente ele mais que vale o tempo despendido na visita.

    Por fim, embora eu lute para não ser pessimista, creio infelizmente que, no final das contas, teremos como que um apocalípse de purificação para a rasa humana... Se as coisas não mudarem radicalmente para mto breve, como vc bem salienta, nossa Mãe-terra sem dúvida há de se rearranjar drasticamente em justiça e proteção da vida maior que não temos respeitado.

    Forte Abraço, L. Janz.

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