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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Qual a verdadeira lógica do mundo?



Lama Samten, Set de 2009.

Muitas vezes nos parece que a lógica do “mundo real” é vitoriosa sobre as nossas aspirações elevadas e visões espirituais, que terminam por mostrar-se frágeis diante da concretitude das circunstâncias. Quando olhamos com lucidez, vemos que não é assim mas justo o contrário, percebemos que ao abandonar os valores elevados terminamos por nos comportar ferindo as relações em algum dos quatro níveis e criamos muitos problemas. Já quando promovemos relações positivas somos recompensados.

1. Se criarmos condições favoráveis para os outros seres, estabelecemos relações satisfatórias; então surge felicidade para nós. Por outro lado, se nós exercemos ações ásperas, negativas, agressivas com os outros seres, nós não conseguimos construir uma civilização, porque uma civilização não é construída pela agressão mas pela coordenação surgida a partir de uma aspiração de paz e harmonia entre as pessoas e seu mundo. Nenhum ato corrupto e agressivo constrói relações positivas, e portanto, não produz felicidade e segurança, conseqüentemente não produzirá uma cultura sustentável, não importa o quão poderoso seja.

2. Esta compreensão não é algo artificial. É como se estivéssemos em uma escola da vida onde aprendemos que fazer assim é melhor e que fazer de outro modo é catastrófico. Não é necessária uma ética artificial, basta aprendermos com a experiência real que todos temos durante nossas vidas. A noção de responsabilidade universal nos leva em direção a uma cultura que, reconhecendo isso, vai ser naturalmente uma cultura de visão ampla e paz.

3. A conexão da responsabilidade universal com nossas emoções e com a visão espiritual é introduzida através da seguinte reflexão, "Não importa quanto poder ou recursos tenhamos, a felicidade dependerá de nossa dimensão de afeto, de carinho, de compaixão e de amor. Se nós não tivermos isso, a nossa vida vai parecer infeliz e sem sentido." Nós, seres humanos, somos cooptados por uma aspiração de atingir poder e recursos, mas isso é um engano. Esses poderes e recursos não vão proporcionar a experiência que todos buscamos e que só vem com compaixão, amor e afeto.

4. No tempo da nossa cultura atual, vemos ações de desenvolvimento que não contemplam esses valores, é como se fossem originadas fora do âmbito humano. São geradas por uma lógica que não é mais propriamente humana, uma vez que não tem por objetivo explicito trazer felicidade e reduzir o sofrimento, mas são referenciadas por números abstratos e sem emoção.

As organizações referenciadas assim não têm emoções humanas, mas têm aspirações de dominação e de recursos. Dentro dessa perspectiva podemos dizer que nós, seres humanos, estamos quase “colonizados” por este tipo de inteligência alienígena. Ou seja, é como se surgisse uma “inteligência”, que não é uma inteligência humana propriamente, e que começa a gerar os processos todos com uma lógica própria onde a felicidade ou infelicidade dos seres humanos nem é contemplada. E aí, nós, seres humanos, temos que nos juntar e priorizar a reintrodução dos valores humanos. Nossa fragilidade é sermos cooptados por este tipo de inteligência cuja ação, se continuada, não apenas nos trará crescente infelicidade como também destruirá o suporte da vida sobre o planeta.

5. Sob o ponto de vista dessa inteligência não humana e fria, quando nós não estamos bem, ela não oferece uma visão investigativa que busque a origem dos desequilíbrios, mas indica soluções externas na forma de substâncias químicas de felicidade, ou de alívio, ou apoio psicológico, como se cada ser fosse desequilibrado em si mesmo. Em todos os momentos há, por trás, a visão de que a realidade é sólida na forma como se oferece, assim é o mundo real. Surge sempre a sugestão, “Reprograme sua mente, pois o problema é seu! A verdade é isso que está aqui!”

Entendendo assim tentamos nos “ajustar”. As dificuldades são tratadas a portas fechadas como se fossem problemas individuais. Mesmo que a introdução desta cultura acarrete o surgimento de uma epidemia de doenças comportamentais e emocionais o que as pessoas pensam é, "Esse desajuste é meu!" O problema parece individual, e a pessoa é tratada individualmente. Surge uma epidemia de pessoas que frustradas e sem entender o que acontece se drogam e são tratadas uma a uma. Surge uma epidemia de pessoas que não têm inserção social e que tentam romper isso por ações que resultam anti-sociais, e aí também são tratadas com violência, uma a uma.

6. As pessoas que abandonam a visão ampla e tentam auto-centradas atingir a felicidade e segurança se frustram, e as pessoas que, mesmo aspirando inserir-se no mundo convencional, não encontram a entrada, ficando alijadas deste processo também ficam infelizes. Em nenhum ponto há um ganho real. Em nenhum ponto há equilíbrio.

7. Este é o desafio. Sem uma cultura de paz, sem a visão da responsabilidade universal, a vida se torna insatisfatória, e a própria sustentabilidade da biosfera fica ameaçada. Nesse sentido, o mundo real, enquanto o mundo possível e sustentável, é o mundo da cultura de paz e não o mundo como pensamos que ele é, desde nossas visões obstruídas.

Fonte: Centro de Estudos Budistas Bodisatva

2 comentários:

  1. Olá,

    o equilíbrio me parece fundamental, mas como ele é difícil de ser encontrado ou alcançado nestes dias.
    Gostei muito.
    Namastê!!

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  2. É, meu caro amigo L.Janz, vivemos sob pressão numa sociedade que faz apologia de falsos valores e inversão das coisas. A ilusão, maya e o glamour ditam as crenças, comportamentos e costumes na nossa sociedade. Mas como tudo é impermanente, a própria ilusão se dissipará, gradualmente... Gasshô_/\_ Shalom!

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