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sábado, 24 de setembro de 2016

Ensaios: Mística Científico-Filosófica



Do mundo entre mundos.


Então, no início. ... . Não houve um início. O universo é, de per si, um “ente” multidimensional e eterno. O que significa que “ele” existe desde sempre, desdobrando-se em alguns “pontos” e contraindo-se noutros, em sua inefável dinâmica de ampliação de todas as formas de vida, com seus diferentes graus e perfis de manifestação. É por isso que se diz (e nós corroboramos) ser o tempo relativo, não só no sentido “externo”, mas também, efetivamente, dado que o mesmo não existe enquanto um qualquer objeto, senão, como um instrumento de nosso particular constructo cognitivo.

Essa visão aqui proposta, é, pois, especialmente mais vinculada a uma perspectiva místico-filosófica da realidade, que, não obstante, tem ganhado cada vez mais espaço também em nossas mídias globais (muito em função da aproximação, real, entre ciência e espiritualidade). Dito isso, vejamos como “reinterpretar” o nosso presente estado de mundo (de maneira resumida) por essa nova “lente-prisma”, ou, como nosso título sugere, por uma abordagem de múltiplos mundos inter-relacionados.

Em geral nós temos tido (coletivamente gerado, in actu) um olhar muito catastrofista da realidade que nos cerca. Isto é, nossa sensação de futuro tem se tornado cada vez mais pessimista e apocalíptica, quando não, verdadeiramente tenebrosa. Mas isso não é sem motivo, não. Com uma velocidade cada vez maior de inovações tecnológico-científicas, somado também a uma crescente gama de problemas complexos, ficamos, assim, a maioria de nós, estremecidos, demasiado fechados e/ou bastante perdidos.

Porém, o que acontece, de fato, num plano mais sutil da realidade, não é, necessariamente, uma suposta guerra entre o bem e o mal, ou ainda, entre a luz e as trevas (a dicotomia padrão de nossas mentes, a que estamos acostumados). O que sucede, na verdade, é que estamos vivendo um período de expansão da consciência humana, para além dos domínios do humano; o que significa, outrossim, que estamos, literalmente, dando nascimento e abertura para outros modos de subjetividade coabitarem a nossa “esfera”.

Á princípio, isso pode parecer meio assustador, porque, aparentemente, implica na comunicação e manifestação, inclusive, de seres de outros mundos e de outras dimensões (como de camadas “espirituais”, por exemplo). Todavia, não é “só” disso que se trata essa expansão. Mais “largamente” (segundo nos consta) esse processo também diz respeito a novas formas para nossa própria constituição humana (não só aqui na Terra) como também em outros planetas vizinhos, ou mesmo, irmanados a nossa humanidade (embora distantes no espaço).

Assim, vendo por essa ótica ampliada, não é o caso de ficarmos temerosos, de nos isolarmos ou querermos nos matar uns aos outros (os bons contra os maus – essa que é uma visão muito superficial da “coisa”). O que precisamos entender, dessa nova fase da Terra (de nossa biosfera e de nós mesmos) é que estamos a como que variar (e, portanto, multiplicar também) os modos existências de nossa percepção “particularmente humana”. “Amanhã”, por exemplo, para aqueles que assim o quiserem, muitos poderão se converter em humanos geneticamente modificados, o que é um fato.

Então, novamente, “amanhã”, por exemplo, poderemos ter esses “novos” tipos de seres humanos (modificados ou híbridos homem-máquina) cuja cognição estará mais voltada para viverem em Marte, ou ainda, no ambiente subaquático de nossos próprios oceanos, etc. Tudo isso, em termos de agigantamento da nossa psique humana, já está acontecendo nos planos mais sutis, com o detalhe de que, inclusive (pela leitura de pesquisas de ponta, ou, com algum preparo introspectivo) a “coisa” se faz realmente visível, não se tratando, pois, apenas de mera especulação, como muitos poderiam “condenar”.

Dessa maneira é que se diz (conforme aqui expomos) de estarmos entrando nesse estranho período dum “entre-mundos”, razão de haver tanta confusão por aí e uma certa obscuridade generalizada. Contudo, repetindo o dito, não é o caso de termos medo, ficarmos desesperados ou tornarmo-nos violentos. É apenas como uma mudança de fase (imaginando as reações químicas) onde a combinação de certos elementos (de maneira diferenciada) não raro, gera um novo estado totalmente singular. Muito bem. Agora, vamos ao “ponto final” desse texto, pois. Qual a sua principal motivação?

Quisemos aqui mostrar (ou, enfatizar) simplesmente, que o nosso mundo é muito mais diversificado e extraordinário do que nós pensamos, via de regra. Relembrando-nos a máxima: “a vida nunca se termina; ela sempre e sempre somente se agiganta ou se transmuta”. Portanto, nossa conclusão, é a de que, se quisermos seguir nesse mundo com uma razoável sanidade mental (sem perdermo-nos em abismos de pessimismos ou falsas teorias espirituais e conspiratórias) é bom já desenvolvermos também esse olhar múltiplo sobre a realidade maior (que é a realidade do Cosmo).

Sem isso; sem essa nova “inteligência” da multiplicidade de modos e da interdependência (de todas as coisas e de todos os seres) dificilmente conseguiremos caminhar sem que não caiamos em visões extremistas (que são sempre muito perigosas, e mesmo, destrutivas). Isso não é tarefa muito fácil, mas, com uma boa dose de leituras corretas e introspecção sincera, é bem possível de o conseguirmos. Em última análise, além de uma perspectiva expandida e também de um maior bem-estar, estaremos, naturalmente, tornando-nos mais respeitosos, mais pacíficos e, igualmente, mais receptivos para com outras óticas e opiniões que não sejam equivalentes á nossa, ou, áquela de nosso grupo de convívio particular.


Lajanz, 24/09/2016.



quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Canções Multivérsicas

Eis o mais novo álbum de Os The Darma Lovers




Para este ano de 2013 vinha sendo preparado o novo álbum (o quinto de uma despretensiosa carreira já de 13 anos) “ESPAÇO!”: uma nova surpresa na caixa de delicadezas sonoras dos Darma Lovers.


Os desafios de viver e buscar liberdade e tranquilidade em um mundo urgente são traduzidos em poesia e música, com o pacificar resgatando a condição essencial da canção como canal de integração, celebração e reflexão, levando, assim, a simplicidade como intenção e atitude ética, estética e poética.


Confira a música inaugural e inspire-se você também! ^^






Para saber mais sobre a banda:
Site oficial

Para aquisição virtual do álbum (dos álbuns):
Itunes Music

quinta-feira, 6 de junho de 2013

A Mente não-mente





Kalama Sutra


Quando curiosamente te perguntarem, buscando saber o que é aquilo,
não deves afirmar ou negar nada.

Pois o que quer que seja afirmado não é a verdade,
e o que quer que seja negado não é verdadeiro.

Como alguém poderá dizer com certeza o que aquilo possa ser,
enquanto por si mesmo não tiver compreendido plenamente o que é?

E, após tê-lo compreendido, que palavra deve ser enviada de uma região
onde a carruagem da palavra não encontra uma trilha por onde possa seguir?

Portanto, aos seus questionamentos oferece-lhes apenas o silêncio;
silêncio e um dedo apontando o caminho.



quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Profecia das Sombras




Círculo de AGAS
(transcodificação ocultista)

No mundo deste mundo hoje surgem quatro novos mundos que já se entrechocam e se repelem no sentido de suas definições. A marcação de territórios e a divisão dos homens, se dá, muito que veladamente, em guerras que se fortalecem dia após dia no plano astral, no plano mágico (ou sutil) e no plano mental – interdimensões do espírito.

Não é, pois, somente da psique o caso em questão, abarcando essa disputa a todos os níveis do que ordinariamente temos por consciência de espécie. Arquétipos do passado remoto se re-manifestam, bem como, novos modelos e simbologias de raças futuristas. Desse modo, tanto se amplia o conceito de humano como se o extrapola.

Falando, assim, do que principia a ocorrer e só tende a aumentar em tempos do futuro breve, iremos pincelar (sem dar o quadro integral, obviamente) do que já vemos no surgir desta nova expansão metamórfica – expansão que, como dito, além de novas dimensões sócio-cognitivas, também nos propicia um como que correlato para a marca da besta.

As posições demarcatórias atuais, por assim dizer, colocamos pelas seguintes frentes místico-filosóficas do amplo arcabouço imagético dos seres humanos: - Resgate Ancestral (das tradições todas de um paganismo pré-cristão). – Espiritualidade Tradicional (das religiosidades convencionais, institucionais e políticas). – Humanismo Antropocêntrico (do hedonismo utilitarista que perfaz o modus padrão hodierno). – Cientificismo Utópico (de força transhumanista e promotora da caixa de pandora).

Sem dar nome certo aos “bois”, vale ressaltar a tremenda confusão que suscita discussões ontológicas, antropológicas e/ou de futurologia para com os filhos destes novos mundos nascentes. Não vamos dizer que não cabe discutir os “pormenores”, contudo, as adesões e influências, sejam “para lá ou para cá”, acontecem mesmo de maneira muito mais sutil do que se imagina; incluindo aí, outrossim, o mover de forças ocultas.

Para finalizar, em termos de pistas, pois que conclusões atualmente sobre isto e sobre aquilo, no geral, não se fazem senão ridículas, eis que nós sinalizamos: nossa atual humanidade está realmente no limiar de um largo processo de “rachadura”. Mostra-se-nos, portanto, partida em no mínimo quatro novas “grandes” espécies.

De que tipo serão estas novas configurações e de onde (além de como) surgirão é que nos cabe meditar. Mais do que isso, importa buscarmos saber de que tipo nós, individualmente, pretendemos ser nesse amanhã. Agora, sobretudo, é mesmo digno de nossa atenção que isso se dê do modo mais “tranquilo”, com discernimento e o menos traumático possível para todos os seres – se é que isso de alguma maneira seja efetivamente realizável.


Ldk, 20/9/12

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Meditação - Denovo Comprovada.





Se você ainda tinha alguma dúvida sobre os benefícios desse hábito milenar, chegou a hora de começar a praticá-lo diariamente.


Se você nunca tentou meditar, não é tarde para começar. O hábito é para lá de saudável e ajuda a aumentar uma série de características positivas para manter uma vida salutar, incluindo o alívio de dores crônicas e o aumento da capacidade de filtragem de informação — o que permite um aprimoramento nas capacidades de memória e de absorção de dados. Claro que as benfeitorias não param por aí.

Um estudo recente realizado por pesquisadores da Universidade de Washington (EUA) constatou que hábitos regulares de meditação podem ajudar os trabalhadores a se concentrar muito mais, aumentando consideravelmente sua média de produção. Além disso, as pessoas aumentam a capacidade de concentração, o que as permite lembrar de mais detalhes referentes às suas ocupações e também sofrer mudanças menos bruscas de humor.

A pesquisa contou com três grupos de 12 a 15 pessoas. Um dos grupos foi submetido a oito semanas de meditação mental, enquanto o segundo passou pelo mesmo tempo recebendo treinamentos de relaxamento corporal. O terceiro grupo serviu para controle. Após a oitava semana, os participantes realizaram testes de velocidade, precisão e capacidade de realizar várias tarefas simultâneas (comuns à vida em escritório).

O grupo que recebeu o treinamento de meditação superou com larga diferença os outros times, apresentando sinais reduzidíssimos nos níveis de stress, notável capacidade de concentração e melhoramento do uso da memória. Então, está na hora de tirar de dois a vinte minutos por dia para meditar e conseguir alcançar mais qualidade de vida!


Fonte: Tecmundo

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Budismo - Entre Religião e Filosofia.




O que é o Budismo?
(Eqto tradição não-teísta)
Fonte: http://www.honganji.org.br/


O Budismo é um sistema Filosófico-Religioso de auto-realização, que tem sua origem no norte da Índia, no século VI a.C., baseado na experiência de iluminação e ensinamentos de Sidarta Gautama, também conhecido como Shakyamuni, o Buda. A palavra Buda, ao contrário do que muitos pensam, não é um nome e sim um título que significa Desperto, Acordado, Iluminado.

O Budismo, apesar de ser considerado uma das grandes religiões do mundo, não deve ser considerado como religião no sentido estrito da palavra, uma vez que não possui uma figura de “Deus”, “dogmas” e outras características próprias das religiões em geral. Esta palavra “religião”, segundo a tese comumente aceita pelos cristãos desde o tempo de Santo Agostinho, viria do latim , do verbo 'religare' e teria o sentido de religar o homem ao seu criador, do qual ele teria se afastado devido ao pecado original (na tradição judaico-cristã).

No caso do Budismo, não havendo a figura de um “Deus Criador”, um “mito da criação” e, por conseguinte um “pecado original” e todas as suas conseqüências, a palavra religião, neste sentido, não seria apropriada.

Mas, se buscarmos mais a fundo a origem da palavra “religião”, poderemos encontrar outros sentidos mais abrangentes. Segundo a Dr.ª Marie-Louise von Franz :

“Há uma discussão etimológica sobre se a palavra deriva de religare ou de relegere. Naturalmente, ambas têm a mesma raiz: legere, “escolher”, “eleger”, “juntar”, “apanhar” etc. Originalmente, referia-se a apanhar ou colher madeira, mas legere, “ler”, tem outra conexão: a pessoa “escolhe” ou “reúne” as letras, uma a uma; é assim que as pessoas começam a ler e que as crianças ainda hoje aprendem a ler.

Etimologistas modernos pensam que, provavelmente, religio deriva da palavra relegere, o que significaria “consideração cuidadosa (…).” (VON FRANZ, Marie-Louise, Alquimia – Introdução ao Simbolismo e à Psicologia, São Paulo, Cultrix, 1996.) Por outro lado, o termo “filosofia”, mesmo que tomado de empréstimo da cultura grega, não se aplicaria devidamente, pois reduziria o Budismo a um método puramente racional.

No oriente, o Budismo é designado pelo nome “A Doutrina de Buda”, ou simplesmente “O Caminho de Buda”. Já no ocidente, podemos adotar a definição de “religião”, levando em conta que, além do desenvolvimento de uma lógica própria, uma dialética também própria e até mesmo um tipo característico de diálogo do Buda com seus discípulos (uma 'psicologia' própria) muito semelhante aos diálogos de Sócrates com seus discípulos na Grécia antiga (a maiêutica) o Budismo possui também um conceito de “Sagrado” e de “Transcendental”, estando, assim, organizado em congregações com regras disciplinares, ritualística e liturgias próprias; no que seus “monges” vivem geralmente em “mosteiros”.

Adendo do blogger: Vale ressaltar que, a despeito de uma espiritualidade própria, e portanto, um amplo conjunto particular de normas ritualísticas e preceitos morais (de base para a iluminação ou auto-realização) a comunidade budista internacional não se forma exclusivamente por monges ordenados (de vida monástica). Há também a liberdade do ser leigo (de vida ordinária em sociedades) onde, de fato, o maior percentual do número de seguidores se contam nesta 'modalidade'.


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Hábitos do ego


A descoberta de Sidarta [Buda] sobre a falácia do “eu” é simbolizada na história da destruição de Mara. Tradicionalmente chamado de o senhor maligno do reino do desejo, Mara não é nenhum outro a não ser o apego de Sidarta ao “eu”.

É adequado que Mara seja retratado como um guerreiro bonito e poderoso que nunca foi derrotado. Como Mara, o “eu” é poderoso e voraz, egocêntrico e traiçoeiro, sedento por atenção, esperto e vaidoso. É difícil lembrar que, como a ilusão do anel de fogo, o “eu” é algo montado, não existe independentemente e é suscetível à mudança.

O hábito nos torna fracos contra o “eu”. Mesmo hábitos simples são difíceis de serem eliminados. [...]

Mas o hábito do eu não é um simples vício como fumar cigarros. Estamos viciados no eu desde tempos imemoriais. É como nos identificamos. É o que amamos com mais carinho. Também é o que odiamos mais duramente, às vezes. [...]

Quase tudo que fazemos, pensamos ou temos, incluindo nosso caminho espiritual, é um meio para auto-afirmar sua existência. É o eu que teme o fracasso e deseja o sucesso, teme o inferno e deseja o paraíso.

O eu tem nojo do sofrimento e ama as causas do sofrimento. Ele estupidamente trava guerras em nome da paz. Deseja a iluminação mas detesta o caminho para a iluminação. Deseja trabalhar como socialista mas vive como capitalista. Quando o eu sente-se só, deseja amizade. Sua possessividade em relação a quem ama se manifesta em paixão que pode levar à agressão.

Seus supostos inimigos — como caminhos espirituais arquitetados para derrotar o ego — frequentemente são corrompidos e cooptados como aliados do eu. Sua habilidade em jogar o jogo do engano é quase perfeita. Ele tece um casulo em torno de si como um bicho da seda, mas diferentemente do bicho da seda, não sabe como encontrar a saída.

Dzongsar Khyentse Rinpoche.

Fonte: http://samsara.blog.br/

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Como a mente se engana?



Eis uma pergunta que em algum momento qualquer praticante budista se faz: afinal de contas, se temos uma natureza livre, desobstruída, como é que nos enganamos? Como surge a ignorância?

Nem precisa ser praticante budista para pensar numa questão dessas: quem nunca teve alguma atitude lamentável e depois de um tempo não pensou “como é que eu fui capaz de fazer aquilo?” Por que só percebemos a bobagem um tempo depois e não antes de cometê-la?

Na palestra de lançamento do livro A Roda da Vida como caminho para a lucidez, em São Paulo, Lama Padma Samten esclarece com sua maestria e bom humor que, na verdade, a mente nunca se engana! Ela só opera dentro de uma determinada paisagem, com referenciais próprios. Essa paisagem seria como um ambiente mental, com referenciais e conceitos específicos.

A mente sempre vai agir segundo esse ambiente em que está imersa, sempre respeitando os pressupostos da paisagem. Logo, a mente nunca erra!
A ignorância e o engano surgem quando reduzimos o mundo todo à paisagem em que estamos e passamos a agir segundo tal paisagem, não entendendo que ela é uma coisa bem particular e não corresponde a uma realidade absoluta.

Nosso mundo não é senão nossa experiência do mundo

Temos a sensação que a paisagem em que estamos é, de fato, o mundo todo. É daí que brota o engano: dessa certeza, dessa sensação de vermos tudo. Nem pensamos sobre o fato de que, quando vemos uma coisa, não vemos outra, quando estamos numa paisagem, não estamos em outra, logo, há uma limitação. É como a figura das pernas ali em cima: quando vemos as pernas masculinas, não vemos as femininas e vice-e-versa (se você não viu, olhe denovo!). O mesmo acontece no exemplo do cubo que o Lama Samten costuma usar.

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Fonte: Revista Bodisatva

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Qual a verdadeira lógica do mundo?



Lama Samten, Set de 2009.

Muitas vezes nos parece que a lógica do “mundo real” é vitoriosa sobre as nossas aspirações elevadas e visões espirituais, que terminam por mostrar-se frágeis diante da concretitude das circunstâncias. Quando olhamos com lucidez, vemos que não é assim mas justo o contrário, percebemos que ao abandonar os valores elevados terminamos por nos comportar ferindo as relações em algum dos quatro níveis e criamos muitos problemas. Já quando promovemos relações positivas somos recompensados.

1. Se criarmos condições favoráveis para os outros seres, estabelecemos relações satisfatórias; então surge felicidade para nós. Por outro lado, se nós exercemos ações ásperas, negativas, agressivas com os outros seres, nós não conseguimos construir uma civilização, porque uma civilização não é construída pela agressão mas pela coordenação surgida a partir de uma aspiração de paz e harmonia entre as pessoas e seu mundo. Nenhum ato corrupto e agressivo constrói relações positivas, e portanto, não produz felicidade e segurança, conseqüentemente não produzirá uma cultura sustentável, não importa o quão poderoso seja.

2. Esta compreensão não é algo artificial. É como se estivéssemos em uma escola da vida onde aprendemos que fazer assim é melhor e que fazer de outro modo é catastrófico. Não é necessária uma ética artificial, basta aprendermos com a experiência real que todos temos durante nossas vidas. A noção de responsabilidade universal nos leva em direção a uma cultura que, reconhecendo isso, vai ser naturalmente uma cultura de visão ampla e paz.

3. A conexão da responsabilidade universal com nossas emoções e com a visão espiritual é introduzida através da seguinte reflexão, "Não importa quanto poder ou recursos tenhamos, a felicidade dependerá de nossa dimensão de afeto, de carinho, de compaixão e de amor. Se nós não tivermos isso, a nossa vida vai parecer infeliz e sem sentido." Nós, seres humanos, somos cooptados por uma aspiração de atingir poder e recursos, mas isso é um engano. Esses poderes e recursos não vão proporcionar a experiência que todos buscamos e que só vem com compaixão, amor e afeto.

4. No tempo da nossa cultura atual, vemos ações de desenvolvimento que não contemplam esses valores, é como se fossem originadas fora do âmbito humano. São geradas por uma lógica que não é mais propriamente humana, uma vez que não tem por objetivo explicito trazer felicidade e reduzir o sofrimento, mas são referenciadas por números abstratos e sem emoção.

As organizações referenciadas assim não têm emoções humanas, mas têm aspirações de dominação e de recursos. Dentro dessa perspectiva podemos dizer que nós, seres humanos, estamos quase “colonizados” por este tipo de inteligência alienígena. Ou seja, é como se surgisse uma “inteligência”, que não é uma inteligência humana propriamente, e que começa a gerar os processos todos com uma lógica própria onde a felicidade ou infelicidade dos seres humanos nem é contemplada. E aí, nós, seres humanos, temos que nos juntar e priorizar a reintrodução dos valores humanos. Nossa fragilidade é sermos cooptados por este tipo de inteligência cuja ação, se continuada, não apenas nos trará crescente infelicidade como também destruirá o suporte da vida sobre o planeta.

5. Sob o ponto de vista dessa inteligência não humana e fria, quando nós não estamos bem, ela não oferece uma visão investigativa que busque a origem dos desequilíbrios, mas indica soluções externas na forma de substâncias químicas de felicidade, ou de alívio, ou apoio psicológico, como se cada ser fosse desequilibrado em si mesmo. Em todos os momentos há, por trás, a visão de que a realidade é sólida na forma como se oferece, assim é o mundo real. Surge sempre a sugestão, “Reprograme sua mente, pois o problema é seu! A verdade é isso que está aqui!”

Entendendo assim tentamos nos “ajustar”. As dificuldades são tratadas a portas fechadas como se fossem problemas individuais. Mesmo que a introdução desta cultura acarrete o surgimento de uma epidemia de doenças comportamentais e emocionais o que as pessoas pensam é, "Esse desajuste é meu!" O problema parece individual, e a pessoa é tratada individualmente. Surge uma epidemia de pessoas que frustradas e sem entender o que acontece se drogam e são tratadas uma a uma. Surge uma epidemia de pessoas que não têm inserção social e que tentam romper isso por ações que resultam anti-sociais, e aí também são tratadas com violência, uma a uma.

6. As pessoas que abandonam a visão ampla e tentam auto-centradas atingir a felicidade e segurança se frustram, e as pessoas que, mesmo aspirando inserir-se no mundo convencional, não encontram a entrada, ficando alijadas deste processo também ficam infelizes. Em nenhum ponto há um ganho real. Em nenhum ponto há equilíbrio.

7. Este é o desafio. Sem uma cultura de paz, sem a visão da responsabilidade universal, a vida se torna insatisfatória, e a própria sustentabilidade da biosfera fica ameaçada. Nesse sentido, o mundo real, enquanto o mundo possível e sustentável, é o mundo da cultura de paz e não o mundo como pensamos que ele é, desde nossas visões obstruídas.

Fonte: Centro de Estudos Budistas Bodisatva

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Dimensões Escondidas - Alan Wallace


Dimensões escondidas: a unificação de física e consciência é o título em português para Hidden dimensions, obra de Alan Wallace que aproxima ciência e espiritualidade, traduzida por Lúcia Brito. O autor vem ao Brasil a convite do Instituto Caminho do Meio, parceiro da Editora Peirópolis nesta e em outras publicações, e fará palestras no Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Viamão.

Maiores informações sobre Alan Wallace no site do Instituto Caminho do Meio.

Sobre "Dimensões Escondidas": Padma Samten

Estamos imersos em uma cultura que olha o mundo como fixo e surgido externamente. Nesta perspectiva o papel de cada um de nós é muito limitado e, não compreendendo variáveis importantes presentes na experiência da realidade, terminamos frustrados com nossas visões de mundo. Os grandes pais da física quântica compreenderam partes importantes da questão da realidade surpreendente da qual fazemos parte, mas não o mundo interno da própria mente. Vejo que Dimensões Escondidas supre essa lacuna e permite uma aproximação à mente dos mestres e sua visão de realidade. Trata-se de um trabalho de dimensão histórica na transformação positiva de nossa cultura, reconectando cada um de nós com a responsabilidade de agentes criativos da realidade.

Sobre "Dimensões Escondidas": Apresentação

Transpondo a lacuna entre o mundo da ciência e o reino espiritual, B. Alan Wallace introduz uma teoria natural da consciência humana com raízes na física contemporânea e no budismo. A "teoria especial da relatividade ontológica" sugere que os fenômenos mentais são condicionados pelo cérebro, mas não emergem dele. Em vez disso, o mundo de mente e matéria, sujeitos e objetos, surge de uma dimensão unitária da realidade que é mais fundamental que essas dualidades, conforme proposto por Wolfgang Pauli e Carl Jung.

Para testar essas hipóteses, Wallace emprega a prática meditativa budista de samatha, que refina a atenção e a metacognição, para criar um tipo de telescópio para examinar o espaço da mente. Recorrendo ao trabalho do físico John Wheeler, ele propõe então uma teoria mais geral na qual a natureza participativa da realidade é visionada como um circuito auto-excitado. Ao comparar essas idéias com a teoria budista conhecida como filosofia do Caminho do Meio, Wallace explora aspectos adicionais de sua "teoia geral da relatividade ontológica", que podem ser investigados por meio de meditação vipasyana, ouinsight. Wallace enfoca o tema da simetria em relação à cosmologia quântica e ao "problema do tempo congelado", relacionando esses assuntos à teoria e às práticas da escola da Grande Perfeição do budismo tibetano. Conclui com uma discussão do tema geral da complementaridade no que se relaciona à ciência e religião.

As teorias da relatividade e da mecânica quântica foram grandes feitos das ciências da física, e a teoria da evolução teve impacto igualmente profundo nas ciências da vida. Contudo, ainda não existem métodos científicos rigorosos para se observar os fenômenos mentais, e o naturalismo tem limites para lançar luz sobre o funcionamento da mente. Pioneiro na pesquisa moderna sobre a consciência, Wallace oferece um método prático e revolucionário para se explorar a mente, que combina osinsights mais perspicazes de físicos e filósofos contemporâneos com as consagradas tradições meditativas do budismo.

Sobre "Dimensões Escondidas": Sumário

Prefácio e agradecimentos
1. A história antinatural da ciência
2. Os muitos mundos do naturalismo
3. Rumo a uma teoria natural da consciência humana
4. Observando o espaço da mente
5. Uma teoria especial da relatividade ontológica
6. Experimentos de alta energia em consciência
7. Uma teoria geral da relatividade ontológica
8. Experimentos em consciência quântica
9. Simetria perfeita

Fonte: Revista Bodisatva.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Natureza e Não-Violência – A Prática do Interser


Apresentação

Saudações pessoal.

Como o texto da presente publicação é razoavelmente grande, para aqueles que eventualmente não tiverem o tempo necessário para o ler integralmente (embora isso seja altamente recomendável) sugiro saltar direto para o parágrafo número 11 (o qual consta abaixo em negrito) tendo em vista uma incrível peculiaridade deste ponto destacado. Isto é, á exemplo do que já disseram abertamente em grandes mídias o Sr. Prakki Satyamurty (pesquisador e especialista do INPE) e o renomado escritor Leonardo Boff, também o nosso autor, o internacionalmente reconhecido Monge Thich Nhat Hanh, coloca-se a em posição de nos sugerir uma Retirada Sustentável para a problemática ambiental que torna-se a cada dia mais e mais atordoante.

Forte abraço á todos,
Leonardo Janz.


Natureza e Não-Violência – A Prática do Interser

(Capítulo do livro de Thich Nhat Hanh "The World We Have",
tradução de Samuel Cavalcante)


Suponhamos que a gente pegue uma semente de milho e a plantemos em um solo úmido. Uma semana depois ou mais, a semente irá germinar. Depois de três dias, podemos voltar e perguntar ao brotinho “querida planta, você se lembra do tempo em que você ainda era uma semente?”. O brotinho pode ter esquecido, mas como ficamos observando, sabemos que o brotinho de milho realmente veio do grão.

Quando olhamos para a planta não vemos mais a semente e, assim, pensamos que a semente morreu. Mas ela não morreu, ela se tornou a planta. Se você for capaz de ver a semente de milho no pé de milho, você tem um tipo de sabedoria que o Buda chamou de sabedoria da não-dsicriminação. Você não discrimina entre a semente e a planta. Você vê que elas intersão; que elas são a mesma coisa. Você não pode distinguir a semente da planta e nem a planta da semente. Olhando com profundidade uma espiguinha de milho você pode ver a semente de milho lá, ainda viva, mas com uma nova aparência. A planta é a continuação da semente.

A prática da meditação nos ajuda a ver coisas que as outras pessoas não vêem. Olhamos profundamente e podemos ver que o pai e o filho , pai e filha, mãe e filho, mãe e filha, grão de milho e espiga de milho têm uma relação muito próxima. É por isso que temos que praticar pra despertamos para o fato, para a verdade de que intersomos. O sofrimento de um é o sofrimento de outro. Quando muçulmanos e cristãos, hindus e muçulmanos, israelenses e palestinos, perceberem que são irmãos e irmãs uns para os outros, que o sofrimento de um lado é o sofrimento do outro lado, então essas guerras logo acabarão. Quando virmos que nós e todos os seres vivos somos feitos da mesma natureza, como é que poderão existir ainda divisões entre nós? Como poderá ainda existir essa falta de harmonia? Quando percebermos o interser de nossa natureza, pararemos de culpar, explorar e matar, pois saberemos que todos intersomos. Este é o grande despertar que devemos cultivar para que a Terra seja salva.

Nós, seres humanos, sempre tivemos a pretensão de sermos únicos, de estarmos fora da natureza. Classificamos os outros animais e seres vivos como “natureza”, como algo apartado de nós, e agimos como se fôssemos mesmo separados. Então nos perguntamos “Como devemos tratar a natureza?”. Ora, nós devíamos tratar a natureza da mesma maneira que devemos tratar a nós mesmos: de maneira não-violenta. Seres humanos e natureza são inseparáveis. Assim como não devemos ferir a nós mesmos, não devemos ferir a natureza e vice-versa.

Causar danos em outros seres humanos, causa danos em nós mesmos. Acumular excessivamente riquezas e possuir porções excessivas dos recursos naturais tiram dos outros seres humanos a chance de viver. Participar em sistemas sociais opressivos e injustos cria um abismo entre ricos e pobres e agrava a situação da injustiça social. Toleramos excessos, injustiças e guerras sem nos atentarmos para o fato de que a espécie humana sofre como uma família. Enquanto o restante da família humana sofre e passa fome, o gozo da falsa segurança e a riqueza são meras ilusões.

Está claro que o destino de cada indivíduo está inextrincavelmente ligado com o destino de toda a espécie humana. Temos que deixar os outros viver se quisermos viver. A única alternativa para a coexistência é a co-não-existência. Uma civilização na qual temos que matar e explorar outros para viver não é uma civilização sadia. Para criarmos uma civilização sadia, todos temos que ter igual acesso à educação, trabalho, comida, abrigo, cidadania mundial, ar puro e água limpa e a capacidade de circular livremente e escolhermos morar em qualquer lugar do planeta. Sistemas políticos e econômicos que negam a alguém esses direitos ferem toda a família humana. A vigilância acerca do que está se passando com a família humana é necessária para reparar os danos já provocados.

Para gerar a paz no interior da família humana temos que trabalhar por uma coexistência harmônica. Se continuarmos a nos isolar do resto do universo, aprisionando-nos em preocupações estreitas e problemas imediatos, vai parecer que não queremos construir a paz ou mesmo sobreviver. A espécie humana é parte da natureza. Precisamos cultivar este insight antes para podermos ter harmonia entre as pessoas. Crueldade e destrutividade destróem a harmonia da família humana e destróem a natureza. Entre as medidas para remediar essa situação está uma legislação que não seja violenta nem para nós nem para a natureza e que nos ajude a evitar nos tornarmos destrutivos e cruéis.

Cada indivíduo e toda a humanidade é parte da natureza e deveria ser capaz de viver em harmonia com ela. A natureza pode ser cruel e destrutiva. Mas nós precisamos tratar a natureza do mesmo jeito que tratamos a nós mesmos como indivíduos e como família humana. Se a gente tentar dominar e oprimir a natureza, ela se rebela. Devemos ser amigos da natureza para lidarmos com alguns de seus aspectos e criarmos harmonia com o nosso meio ambiente. Isto requer uma compreensão inteira da natureza. Tufões, tornados, secas, enchentes, erupções vulcânicas, proliferação de insetos perigosos, tudo isso se consitui em perigo para a vida. Podemos evitar grande parte da destruição que os desastres naturais causam se trabalharmos com o ambiente desde o início, fazendo planos e construindo decisões que levam em conta a natureza do lugar, ao invés de tentar impor o controle completo sobre ela com barragens, desmatamento e outros dispositivos e políticas que, no final, causam só mais prejuízos.

Um exemplo do que acontece quando tentamos controlar completamente a natureza é o nosso uso excessivo de pesticidas, que mata indiscriminadamente muitos insetos e pássaros e perturba o equilíbrio ecológico. Um crescimento econômico que devasta a natureza ao poluir e exaurir recursos não renováveis torna impossível para os seres vivos viver no planeta Terra. Tal crescimento pode parecer temporariamente benéfico para algumas pessoas, mas na realidade, rasga e destrói a natureza como um todo. A harmonia e o equilíbrio entre os indivíduos, sociedade e a natureza está sendo destruída. Os indivíduos estão doentes, a sociedade está doente e a natureza está doente. Precisamos restabelecer o equilíbrio, mas como? Por onde começar o trabalho de cura – pelo indivíduo, pela sociedade ou pela natureza? Precisamos trabalhar nos três domínios. Pessoas de diferentes disciplinas científicas tendem a focar suas áreas particulares. Por exemplo, políticos consideram que um efetivo rearranjamento da sociedade é necessário para a salvação dos humanos e da natureza, e, portanto, enfatizam que todos devem se engajar na luta para mudar o sistema político.

Os monges budistas são como psicoterapeutas, tendemos a ver o problema pela ótica da saúde mental. A meditação objetiva criar harmonia e equilíbrio na vida do indivíduo. A meditação budista lida tanto com o corpo quanto com a mente e usa a respiração como instrumento para acalmar e harmonizar o ser humano como um todo. Como em qualquer prática terapeutica, o paciente é colocado em um ambiente que favoreça a restauração da harmonia. Usualmente os terapeutas passam o tempo observando e pontuando seus pacientes. Portanto, eu conheço alguns que, como os monges, observam a si mesmos primeiro, reconhecendo a necessidade de libertarem-se primeiro a si mesmos dos medos, ansiedade e desespero que existem dentro de cada um de nós. Muitos terapeutas parecem pensar que não têm problemas mentais, mas o monge reconhece em si mesmo sua própria suscetibilidade aos medos e ansiedades, e à doença mental causada pelo caráter desumano de nossos sistemas sociais e econômicos.

Os praticantes budistas acreditam que a natureza interconectada do indivíduo, da sociedade e da ambiente físico se revelará a nós à medida em que nos curamos e assim não seremos mais possuídos pelas ansiedades, medo e pela dispersão da mente. Dentre os três domínios – indivíduo, sociedade, natureza – é o individuo que começa a efetivar a mudança. Mas para isso, o indivíduo tem que estar inteiro. E já que isso requer um ambiente favorável à cura, o indivíudo tem que buscar um estilo de vida livre da destrutividade. Nossos esforços para mudar a nós mesmos e o meio ambiente são ambos necessários, mas um não pode acontecer sem o outro. Sabemos como é difícil mudar o meio ambiente se os indivíduos não estiverem em equilíbrio. Nossa saúde mental tem como premissa que o nosso esforço de recuperar nossa humanidade deve ser nossa prioridade.

Restaurar nossa saúde mental não significa simplesmente nos ajustarmos ao mundo moderno, de rápido crescimento econômico. O mundo está doente e se adaptar a um ambiente doente assim não trará saúde real. Muitas pessoas que precisam de psicoterapia são, na realidade, vítimas da vida moderna que nos separa uns dos outros e do resto da família humana. Uma maneira de ajudar é se mudar para uma área rural, onde se têm a chance de cultivar a terra, plantar e colher o próprio alimento, lavar as roupas no rio e viver de maneira simples, partilhando da mesma vida que milhões de camponeses mundo afora.

Para que a terapia seja efetiva, precisamos de uma mudança do meio ambiente. Atividades políticas são um recurso apenas, mas não o único. Tranquilizarmo-nos através do consumo descontrolado não é a solução. O envenenamento do nosso ecossistema, a explosão de bombas, a violência nos bairros e na sociedade, a pressão do tempo, o barulho, as multidões solitárias – tudo isso foi criado no curso desse nosso crescimento econômico e são fontes de doenças mentais. Ao fazer o que quer que seja para eliminar estas causas, estaremos praticando uma medicina preventiva.

Manter nossa saúde mental como nossa prioridade número um significa também reconhecer nossa responsabilidade pela família humana inteira. Precisamos agir para evitar que os outros fiquem doentes ao mesmo tempo em que protegemos nossa própria humanidade. Quer sejamos monges , monjas, professores, terapeutas, artistas, carpinteiros ou políticos, somos todos humanos também. Se aplicarmos a nós mesmos o que tentamos ensinar aos outros, tornaremo-nos mentalmente doentes. Se apenas continuarmos com nossas vidas, convivendo com o status quo, gradualmente nos tornaremos vítimas do medo, da ansiedade e do egoismo. Uma árvore se revela a si mesma para um artista quando ele consegue estabelecer uma certa relação com ela. Alguém não suficientemente humano poderá olhar para seus similares humanos e não vê-los, poderá olhar para uma árvore e não vê-la.

Muitos de nós não conseguimos ver as coisas por que não somos completamente nós mesmos. Quando somos completos, podemos ver uma pessoa e, através de uma vida integral, demonstrar para todos que a vida é possível, que o futuro é possível. Mas a questão “O futuro é possível?” não tem sentido se não formos capazes de ver os milhões de outros seres humanos que sofrem, vivem e morrem à nossa volta. Depois de conseguirmos vê-los realmente, seremos capazes de ver a nós mesmos e ver a natureza. Lembremos o tsunami no Oceano Índico de 2004, que matou centenas de milhares de pessoas da Indonésia, Sri Lanka, Tailândia, Índia e África. Gente vinda da Europa, Austrália e Estado Unidos, que ali passavam as férias, também morreram. Todo mundo sofreu muito e ficamos nos perguntando por quê? Por que Deus permitiu que isso acontecesse? Por que essas pessoas morreram? Eu também sofri. Mas eu pratiquei. Sentei-me e pratiquei o olhar profundo. E o que eu vi foi que quando essas pessoas morreram, nós também morremos com elas, por que todos nós intersomos juntamente com elas.

Você sabe que quando uma pessoa amada morre, uma parte de você também morre; de alguma maneira você morre com essa pessoa. Isso é fácil de entender. Assim, se tivermos compreensão e solidariedade, quando virmos outras pessoas morrendo, mesmo pessoas estranhas do outro lado do mundo, nós sofreremos e morreremos com elas. O que descobrimos é que elas morrem por nós. Assim, temos que viver por elas. Temos que viver de tal modo que o futuro seja possível para as nossas crianças e para as crianças delas. Se a morte delas terá ou não um significado, dependerá de nosso modo de vida. Este é o insight do interser. Elas são nós e nós somos elas. Quando elas morrem, também morremos. Quando continuamos a viver, elas continuam a viver conosco. Com este insight, você sofrerá menos e saberá como continuar. Você as carrega dentro de si e, sabendo disso, fica em paz.

Praticar a plena consciência e olhar profundamente a natureza das coisas é descobrir sua verdadeira natureza, a natureza do interser. Encontraremos a paz e podemos gerar a força que precisamos para estar em contato com tudo. Com este entendimento, podemos facilmente sustentar o trabalho de amor e cuidado pela Terra, e por nós mesmos, por um longo tempo.

Fonte: Monge Thich Nhat Hanh