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quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Do ente pós-humano


Uma breve introdução em forma interrogativa:

Tendo em vista nossa crescente e incessante depedência das máquinas hoje em dia, sem falar dos processos de hibridismo que vêem ocorrendo cada vez com mais frequencia, até que ponto nos é apropriado o adjetivo humano? Estaríamos realmente numa fase inaudita de transição para o pós-humano? Ou seríamos já hoje, como muitos advogam, entidades ciborgs sem a devida consciência dessa mutação inevitável?? Leiam a entrevista.

Abraços, L. Janz.


Ray Kurzweil
"Seremos meio máquinas"
Um dos maiores futurólogos da atualidade diz que os computadores “pensarão” como os humanos

Por Julio Wiziack

O americano Raymond Kurzweil, 57 anos, apareceu na tevê pela primeira vez num programa de calouros dos EUA chamado I’ve got a secret (Eu tenho um segredo), apresentado por Steve Allen, na década de 60. Tocou piano e, no final, revelou seu segredo: “Construí meu próprio computador.” Allen, que ficou sem entender, perguntou: “O que isso tem a ver com a música que você executou?” A resposta surpreendeu: “Foi ele quem a compôs.” Estava assim apresentado, em cadeia nacional, o primeiro sintetizador musical, um teclado que imita os sons dos instrumentos de uma orquestra e, se não bastasse, ainda compõe canções. Ray, como ele gosta de ser chamado, não parou mais de inventar. São dele equipamentos como o scaner e o tradutor de textos para deficientes visuais.

Revistas especializadas e instituições científicas o consideram o sucessor de Thomas Edison (o inventor da lâmpada) e o definem como o maior futurólogo do mundo. Premiado com a National Medal (maior honraria que o governo americano concede a um cientista) e com uma dúzia de doutorados honoríficos internacionais, ele escreveu seu quinto livro: The singularity is near: when humans transcend biology (A singularidade está próxima: quando os humanos transcendem a biologia). O livro chega às prateleiras americanas causando reboliço. Não é para menos: Kurzweil prevê que os humanos se fundirão aos computadores e aprenderão fazendo um simples download da internet diretamente no cérebro.

ISTOÉ – Como aumentar nossa capacidade cerebral?

Ray Kurzweil – O uso dos computadores já nos permite ampliar nossa inteligência. Muitos programas aceleram o raciocínio lógico. Cálculos astronômicos, que antes levavam horas para ficar prontos, são feitos em segundos graças a softwares específicos. Isso dinamiza a produção do conhecimento humano que pode ser acessado imediatamente pela internet. Em duas décadas, teremos à nossa disposição a tecnologia dos nanorrobôs que terão o tamanho de uma célula e serão dotados de habilidades computacionais e de comunicação.

ISTOÉ – Eles vão interagir conosco?

Kurzweil – Injetados na corrente sangüínea, eles chegarão aos capilares nervosos do cérebro para interagir com nosso corpo criando um ambiente de realidade virtual. Poderiam, por exemplo, fornecer conhecimento para o cérebro por um simples download.

ISTOÉ – A ficção descrita no filme Matrix vai se tornar realidade?

Kurzweil – A propósito, os irmãos Wachowski (diretores do filme) pediram que todos os envolvidos na produção de Matrix lessem meus livros. O download de conhecimentos é uma das possibilidades da inteligência não biológica. A tecnologia dos nanorrobôs proporcionará uma imersão plena na realidade virtual através dos próprios nervos. Para quem quiser experimentar, bastará um comando e os nanorrobôs cortarão os sinais enviados pelo sistema biológico passando a fornecer os comandos da realidade virtual. Será possível também mesclar os dois universos, como aparece no filme Minority report, em que uma biblioteca é acessada virtualmente.

ISTOÉ – Os humanos serão meio máquinas. E os computadores, serão mais humanos?

Kurzweil – Os robôs, e as máquinas em geral, serão cada vez mais parecidos com os humanos. E isso vai acontecer devido aos avanços nas pesquisas de engenharia reversa do corpo humano. Ao decifrar o funcionamento dos órgãos humanos é possível reconstruí-los. Os equipamentos que escaneiam o cérebro, por exemplo, já oferecem imagens cada vez mais definidas e em três dimensões. A quantidade de informações que obtemos sobre nossa natureza dobra a cada ano de estudo.

ISTOÉ – O que já se sabe sobre o funcionamento do cérebro?

Kurzweil – Atualmente, cerca de 20 regiões cerebrais (entre as centenas que existem) foram mapeadas, incluindo o cerebelo, o arquivo de nosso conhecimento. Sozinho, ele concentra metade de todos os neurônios do cérebro. À medida que progredimos nessas pesquisas podemos converter o funcionamento dos órgãos em modelos matemáticos para criar simuladores. Acredito que desvendaremos o cérebro e a inteligência humana nas próximas duas décadas. Para fazer esse cálculo também levamos em conta o crescimento da capacidade dos computadores, que serão bilhões de vezes mais potentes.

ISTOÉ – Entender como o cérebro opera permitirá fazer exatamente o quê?

Kurzweil – Criar programas que simulam as funções vitais, que poderiam ser desempenhadas por computadores. Um portador de deficiência múltipla, voluntário em uma nova linha de pesquisa, já executa algumas tarefas com a ajuda de máquinas conectadas diretamente em seu cérebro. Isso indica que nos fundiremos com os computadores. Ê a chance de nos tornarmos mais inteligentes, porque teremos a potência de cálculo das máquinas dentro de nós. Os nanorrobôs viajarão pela corrente sangüínea para nos manter saudáveis. Eles destruirão patogenias, removerão placas de gordura e corrigirão erros do DNA.

ISTOÉ – Haverá o risco de os humanos serem dominados por sua
porção não biológica?

Kurzweil – Em 2040, a porção não biológica da inteligência humana será bilhões de vezes superior, mas estaremos no comando em tempo integral. Uma curiosidade dessa revolução é que a ciência trará a possibilidade para as pessoas diferenciarem seus corpos. Hoje os humanos são organicamente iguais. Existe muito mais diversidade genética num grupo de macacos do que entre os humanos. Acontece que as pessoas têm vontade de se diferenciar e fazem isso por meio da moda, usando maquiagem, tatuagens, piercings e cirurgias plásticas. Esses são os recursos tecnológicos disponíveis.

ISTOÉ – Quais são as possibilidades futuras?

Kurzweil – Em duas décadas, vamos interferir na organização cerebral e no substrato bioquímico que transmite todos os sinais e impulsos em nosso corpo. Esse “serviço” passará a ser executado por componentes eletrônicos a uma velocidade milhões de vezes superior.

ISTOÉ – Por que precisamos mudar nossa configuração corporal para
continuar evoluindo?

Kurzweil – A primeira geração de ferramentas, incluindo as da Revolução Industrial, expandiu o alcance de nossos corpos. A era da informação, que é o segundo estágio da Revolução, está expandindo o alcance de nossas mentes. A terceira fase, que será marcada pela nossa fusão com as máquinas, ampliará a capacidade de nossos corpos e cérebros. No meu ponto de vista, este é o próximo passo da evolução. A tecnologia é, ela própria, um processo evolutivo em constante e acelerado fluxo que aumenta a complexidade e a inteligência do mundo.

ISTOÉ – De que forma isso acontece?

Kurzweil – Se tivermos uma tecnologia para capturar apenas 0,0001% da luz que incide na Terra, poderemos obter a energia de que precisamos para nos livrar dos combustíveis fósseis e dos poluentes atmosféricos. Painéis solares obtidos por meio de nanoestruturas e células de combustível tornarão essa realidade possível. Estou convencido de que será o fim do aquecimento global e da escassez atual de energia.

ISTOÉ – Não há risco de as novas tecnologias criarem um mundo de excluídos?

Kurzweil – Em sua fase inicial, uma nova tecnologia é de fato muito cara e, pior, não funciona direito. Só com tempo de uso é que ela fica mais barata e apresenta bom desempenho. As drogas contra a Aids, por exemplo, começaram a ser vendidas a US$ 30 mil por pessoa ao ano sem fazer o efeito desejado. Hoje, custam menos de US$ 100 anuais e chegam aos locais mais distantes da África. Um levantamento do Banco Mundial mostra que a pobreza na Ásia caiu pela metade nos últimos dez anos devido aos avanços promovidos pela tecnologia da informação e será cortada em 90% nos próximos dez anos se for mantida sua taxa atual de crescimento.

ISTOÉ – Quantos anos poderemos viver a mais se essas tecnologias forem incorporadas ao nosso dia-a-dia?

Kurzweil – Ampliar a longevidade humana é um processo em andamento. No ano passado publiquei um livro com o médico Terry Grossmann para avaliar o impacto da nova onda tecnológica na expectativa de vida. Ainda não dá para saber quanto esticaremos nosso prazo de validade, mas é certo que viveremos muito mais. Não dispomos hoje dos recursos que teremos em 15 anos, mas dá para tomar algumas medidas que desaceleram o envelhecimento.

ISTOÉ – O sr. já conseguiu retardar seu envelhecimento?

Kurzweil – Sim. Com um controle de suplementos nutricionais, diminuí meu colesterol ruim de 280 para 130. Eu tinha diabete tipo 2 e há 20 anos não tenho mais. Também faço exercícios regularmente e uma batelada de 40 exames que me dizem como estão os indicadores sangüíneos e hormonais. De acordo com os testes médicos, quando eu tinha 40 anos meu corpo era como o de uma pessoa de 38. Completei 57 anos e ele está mais ou menos com 40. Meu objetivo é chegar aos 60 com um organismo de 38. Em breve haverá uma revolução nessa área.

ISTOÉ – Que revolução é essa?

Kurzweil – O amadurecimento da biotecnologia. O atual desafio da ciência é interferir nos mecanismos biológicos para reprogramar o RNA e melhorar a produção de enzimas e proteínas. Essa evolução nos permitirá alcançar um fantástico estágio de transformação imposto pela nanotecnologia. Aqueles robôs do tamanho de uma célula vasculharão nosso organismo para fazer reparos em tempo integral. Aí sim, o homem viverá muito mais porque será possível curar doenças antes mesmo que elas se manifestem.

ISTOÉ – A idéia de interferir na data da morte não cria resistência
entre os religiosos?

Kurzweil – Muitos religiosos encontram paralelos entre minhas previsões e os textos sagrados. Há atualmente mais resistência entre os fundamentalistas humanistas. Essa turma defende a não mudança de nossa humanidade biológica, da mesma forma que prega que não devemos modificar os tomates.

ISTOÉ – Quais são os efeitos negativos dessa nova onda de inovações?

Kurzweil – A mesma biotecnologia que cura um câncer poderá munir um terrorista na criação de uma arma biológica. Mas responderemos à altura. Quando a internet foi criada, surgiram os vírus e desenvolvemos programas para exterminá-los. A boa notícia é que existe tecnologia contra as novas ameaças e está em curso a proposta de criação de um programa de US$ 100 bilhões para desenvolver os antídotos.

ISTOÉ – Os humanos estão prontos para todos esses avanços?

Kurzweil – As pesquisas nessa área continuam a passos rápidos. O fato de o governo estabelecer restrições para esses estudos, bem como para as pesquisas com células-tronco, nunca teve grande impacto. E cada vez mais há dezenas de métodos de pesquisas biotecnológicas que são conduzidas em um caminho que não enfrentam resistência. Essas controvérsias acabam sendo como pedras no fundo de um rio: a corrente do progresso apenas flui sobre elas. É assim que será com a nova revolução que se anuncia.

Fonte: http://www.terra.com.br/istoe/1929/entrevista/1929_vermelhas_01.htm

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