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sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O Segredo do Mistério – Ensaio Desconstrutivista



Quero começar este pequeno texto com a seguinte proposição: “a realidade é certamente o maior de todos os absurdos. “ Temos hoje em dia as mais diferentes explicações e teorias para o que seja a Realidade Última, a Consciência, o Absoluto, a Verdade, a Mente-Una, o Espírito, etc, etc e etc. E são tantas as hipóteses possíveis que é disso mesmo que deriva o tamanho do absurdo referido; a grandiosa dimensão do labirinto a que chamamos de conhecimento.

Na atualidade, genericamente falando, diz-se que tudo é consciência. Todo o mundo a nossa volta nada mais é do que um infinito campo mental-holográfico dinâmico, retroalimentar e interdependente. Daí a peculiaridade de nossas experiências e interpretações unívocas em nível individual, o que também tem-se denominado, mais recentemente, por tunelamento psíquico – um belo termo.

No entanto, apesar dessa unicidade da experiência, que também se conhece por idiossincrasia, ou ainda, segundo linhas filosóficas, o ‘estado-qualia’, todos nós operamos via quadros comuns. Isto é, pelo fato de não termos consciência de nossa liberdade natural e originalidade, guiamos toda a nossa existência com base na imitação de modelos pré-formatados, que, consequentemente, limitam enormemente a nossa manifestação.

Não há muito tempo e se criou outro termo interessante, proveniente da biologia, o conceito de memética, o qual representa bastante bem a nossa condição de um aprisionamento-psico-cultural. Assim, porque sofremos ainda de uma delusão básica acerca da verdadeira natureza do Real, que é perenemente mutante e dependente de nossa interação, nos deixamos levar por imposições projetivas das mais variadas fontes.

Assim, pouco interessa se a nossa “verdade” é um constructo da mídia, da religião, da cultura artística ou ainda da ciência; a forma como vemos o mundo e a nós mesmos, enquanto provier de algo já previamente imaginado, de nenhum modo poderá nos propiciar um retorno a nossa condição de liberdade genuína. Isso é algo que deve ser avaliado com muita cautela em se tratando da Realidade do Mistério.

E neste ponto temos igualmente um sério problema de linguagem, como diria Anton Wilson, pois que, mesmo estando conscientes do fato de nosso auto-aprisionamento, quando nos pomos a comunicar, é quase impossível não nos projetarmos para “cima” dos outros. E é assim que vamos, ironicamente, brincando de quem é que possui a maior de todas as verdades, sem perceber que este processo é um fator mútuo-escravizante.

O absurdo do Real, portanto, após muitas leituras e vasta investigação, realmente se nos figura como um labirinto sem-saída. Todavia, no final das contas, percebemos que existe sim uma saída; uma única e mui estreita passagem de liberação e reencontro conosco mesmos. Vamos aqui genericamente chamá-la de “o lado escuro”. Desse modo, o caminho para que possamos nos libertar de todas as obstruções, referências, condicionamentos e projeções alheias, é muito semelhante ao método-zen de auto-reconhecimento.

Ora, como estamos a falar sobre a Verdade da Realidade Última, que hoje está inexoravelmente para nossa condição interna, o nosso ver-particular, a saída de maneira nenhuma pode estar do lado de fora; em livros, doutrinas, manuais, teorias, etc, e muito menos pode ser encontrada no outro. O fato de que tudo, absolutamente tudo que nos cerca, é fruto da consciência, nos lança inapelavelmente para um nível de auto-observação não-inquiridora, o que é quase como que uma experiência de ‘não-eu’.

Então chegamos finalmente ao ponto derradeiro e de uma assimilação bastante difícil, embora não complexa – o desconstrutivismo. Esse termo já existe, quer-me parecer que em filosofia da linguagem. Porém, seu uso é muito diferente do qual iremos aqui apresentar. Ou seja, esta “verdade” que aqui colocamos é simplesmente a ausência de toda e qualquer verdade possível acerca do Real. Isto muito se parece com o agnosticismo, por certo, embora não o seja, pelo fato de não concebermos uma validade objetiva para qualquer tipo de conhecimento a respeito do mundo, do universo e de nós mesmos.

Em resumo. Uma vez atingido certo grau de conhecimento global do mundo, da consciência e da sociedade como um todo (o universo espistêmico) a partir de um ponto “x” somos automaticamente lançados para o nosso ‘mundo interno’, curiosamente, em busca dessa mesma verdade que buscávamos fora. No entanto, notamos que ‘aqui’ também tudo se dá exatamente do mesmo jeito – Vontade e Representação. Logo, que outro caminho para o Real senão através de um desconstrutivismo¿

Exceto isso e permancemos no fluxo da continuidade infinita (o da relatividade tempo-espaço) cujo movimento projecional também é conhecido em filosofia como o processo vir-a-ser. Finalmente, se esse aludido movimento não tem fim, sendo ele de todo o sempre uma reprojeção de nossa personalidade auto-iludida, logo, a liberdade perfeita só pode mesmo advir pela assunção da indevassabilidade do Real.

Nesta condição, após todas as leituras, estudos, teorias, sistemas e especulçaões possíveis e impossíveis para aquilo que de todo o sempre se reconfigura, é então que, tendo realizado a inefabilidade do Mistério e a magnanimidade do Desconstrutivismo como método legítimo de auto-encontro, ficamos nus e finalmente passamos a viver em vez de indefinidamente sofrermos em nos reprojetar como isto ou como aquilo.

Leonardo Janz, 011-2009

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