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sábado, 2 de janeiro de 2010

Espistemologia anticapitalista na pós-modernidade



Apresentação

O texto que segue trata de recolocar a visão do Materialismo Dialético (de Marx) sob uma nova perspectiva e como forma de compreensão ampliada quanto a inaceitabilidade espitemológica da Teoria Capitalista (de seus ‘conjuntos-verdade’). Portanto, tendo em vista sua inequívoca contribuição para um melhor entendimento do atual problema capitalista (que até ‘ontém’ era visto apenas como de ordem sócio-economica) agora o temos com essa dimensão maior que abarca igualmente o problema ambiental; daí o tamanho do problema, que dia a dia, só vemos piorar pela dinâmica do neo-liberalismo: uma degradação cada vez maior de nosso aspecto humano sócio-ambiental, sem que se mude os pressupostos e a prática corrente naquilo que ordinariamente tomamos por
economia.


Boa Leitura, Léojanz.

Racionalidade Ambiental: uma espistemologia anticapitalista na (para) a pós-modernidade (Kenzo Jucá, Janeiro de 2008)

Economistas neoliberais e de várias escolas proclamaram a decadência da teoria do valor de Karl Marx, que condiciona a produção capitalista às condições objetivas e materiais do processo histórico do trabalho, método detalhado pelo economista e membro da direção nacional do PSOL João Machado, em artigo na Página 50.

A suposta inadequação do marxismo ao século 21 retirou da economia sua âncora com o real, soltando-a aos vendavais do mercado e do interesse subjetivo individual. Esta nova racionalidade capitalista, confiante no potencial da inovação tecnológica egocêntrica, produz uma ciência econômica que se pretende hegemônica a partir de critério totalmente injusto de distribuição das riquezas e desvinculado das condições natural-ecológicas da produção e das representações socioculturais do ambiente, da matéria-prima da produção e do passivo produzido por seus efeitos.

Para o teórico Enrique Leff, nem o chamado ecomarxismo, tampouco a dita economia ecológica, conseguiram restaurar um princípio e uma substância real de valor, como fundamentos dialéticos do processo econômico. Nesse cenário de confusão epistemológica, surgiram, de forma oportunista, teorias como neoliberalismo ecológico e economia ambiental, que geraram a teoria do valor total - insistências do sistema capitalista em recodificar o mundo em termos de Capital: capital natural, capital humano, capital científico etc.

A monstruosidade deste mundo-objeto produz políticas de globalização econômico-ecológica, supostamente sustentáveis ao ambiente, como o mecanismo de desenvolvimento limpo (MDL) e sua mais recente “descoberta”: as convenções internacionais sobre absorção (seqüestro) de partículas de carbono da atmosfera por árvores em crescimento, gerando ativos financeiros que já podem ser negociados pelas corporações na bolsa de valores de mercados futuros – apesar das incertezas científicas sobre a real eficiência físico-natural desse “mecanismo” capital-ambiente.

O principal fundamento da teoria do valor em Marx é a conceituação do trabalho abstrato. A compreensão dos fenômenos econômicos, para a dialética marxista, tem como núcleo central o processo histórico de transformação do trabalho em geração de riqueza em geral e acende a perspectiva de reflexão acerca das formas dominantes de exploração da Natureza e do Homem pelo homem.

Compreendendo a dinâmica da economia e a dimensão sociopolítica do sistema capitalista, Marx baseia-se nos fundamentos das ciências naturais históricos a sua época, encerrando, pois, sua análise materialista da teoria do valor; que haveria de encontrar seus limites no desenvolvimento da própria historicidade dialética do objeto científico: a dinâmica da produção capitalista e seu ambiente, o Planeta Terra.

Talvez a grande contribuição que a epistemologia ambiental marxista de Leff venha agregando atualmente ao debate anticapitalista, dentre os herdeiros do materialismo histórico científico no mundo, esteja na análise de uma variável extremamente complexa – que não alcançou Marx em sua temporalidade e vem se expressando fortemente nas últimas décadas – e intrínseca à teoria marxista do valor: a parte proporcional de valor incorporado ao produto pelo capital fixo, que são as matérias primas, como os recursos florestais, geológicos, hídricos, antropológicos e biogenéticos da Amazônia brasileira, por exemplo. Os mesmos que permitem à nova Vale anunciar lucro líquido de R$ 14 bilhões ao ano.

Este componente essencial da produção capitalista, o ambiente, adquire importância-chave diante do aquecimento global e das incertezas científicas atuais acerca da disponibilidade dos recursos naturais e dos impactos sobre seus múltiplos usos. O foco do poder energético estratégico mundial poderia até vir a girar do Oriente Médio à América Latina, em período incerto. O pensamento marxista, desta forma, se coloca diante da necessidade de radicalização da análise dialética materialista e dos marcos epistemológicos da teoria do valor em Marx, pressionado justamente pela complexidade da crise ambiental atual.

O problema do cálculo do tempo social da força de trabalho ou da quantidade de valor contida nas mercadorias produzidas globalmente, em 2007, adquire uma complexidade exacerbada, quando consideramos os recursos naturais envolvidos no processo produtivo ou afetados por ele. É um problema que somente poderá ser resolvido pelo materialismo histórico, com sua racionalidade objetivista e ontológica, que orienta a práxis social através da história fundada na produção e no trabalho.
O conceito de natureza em Marx, n’O Capital, remete ao momento histórico da práxis humana e à totalidade da existência da vida, determinada pelo trabalho produtor de valor de uso, a partir da ação entre sociedade e natureza, esta com sua complexidade própria.

Dessa forma, a análise dialética acerca da atualidade econômica do conceito marxista do valor, trabalho e renda, remete obrigatoriamente à compreensão dos processos naturais, visto que estes afetam o tempo social de trabalho, taxas de mais valia e lucro. Para o materialismo histórico, na produção capitalista não existe nem sociedade em geral nem natureza em geral, senão uma articulação teórica e técnica entre natureza e sociedade.

A construção de uma nova racionalidade ambiental implica na desconstução da racionalidade capitalista do mundo globalizado, gerador da crise ambiental. Este esforço epistemológico supera o movimento ambientalista e a ética e senso comuns ecológicos, incapazes de contestar a racionalidade econômica neoliberal dominante.
A crise ambiental marca a passagem da modernidade para a pós-modernidade e expulsa todas as epistemologias modernas existentes para fora do núcleo de suas razões existenciais, levando-as a seus próprios limites para compreensão da complexidade ambiental em curso.

Como marxistas ortodoxos, vemo-nos na obrigação de usar as ferramentas da nascente epistemologia ambiental materialista, para melhor compreensão da realidade do mundo e para (re)definição de conceitos, teorias, estratégias, métodos e práticas revolucionárias, capazes de estabelecer relações socialistas na humanidade e no ambiente planetário, considerando as diversidades culturais e apostando no diálogo de saberes científicos e tradicionais.

Kenzo Jucá - Sociólogo (UFPA), Especialista em desenvolvimento sustentável e direito ambiental (CDS/ UNB), Mestrando em política e gestão ambiental (CDS/ UNB).

Fonte: http://www.socialismo.org.br/portal/

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